Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo, porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia.
Tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas,
enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis.
Ouvia canções lamentosas, bebia para despertar fantasmas distraídos,
relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos.
(Caio F. Abreu)