Me
lembro como se fosse ontem... 2004, um neném branquinho dos olhos verdes chegou
na minha casa. Ele era lindo, sempre foi. Fui brincar com ele e o cachorrinho
sem nome correu atrás de mim e mordeu a minha saia rosa. Morri de medo e entrei
em casa. Minha
mãe chegou com umas vasilhas de cachorros pra água e pra comida, colocou lá pra
ele. Em meia hora ele destruiu as duas. Ele adorava morder as coisas. Nesse
dia, o primeiro dele lá em casa, ele cansou de tanto brincar e dormiu no meu
colo, um bolinho de pelo branco.
Os meses foram passando e ele ia ficando cada
vez maior. Tentamos colocar bários tipos de focinheira nele, ele destruía
todas. Não importava se era de couro, de aço... Ele dava um jeito de tirar em
no máximo duas horas. Como ele já tava um monstrinho, não conseguíamos segurar
ele pra passear... Ele sempre foi criado em casa. Sem esses
treinamentos de Pit Bull, ele era um doce. Só queria brincar e correr. Sempre dormia embaixo da janela do meu quarto,
era meu protetor. Se alguém gritasse comigo dentro de casa ele logo latia pra
me defender. Depois que fechamos a garagem ele começou a dormir na porta da
cozinha. Protegendo todo mundo.
Fugiu
de casa duas vezes. Na primeira, meu pai teve que me acordar pra ir atrás dele.
Acho que ele só queria conhecer a rua, rs. Não corri. Deixei ele dar a volta na
rua e quando ele viu que não tinha nada demais voltou comigo. Sem tapas, nem
gritos. Na segunda vez o pedreiro não viu ele se soltando da corrente e
fugindo. Passamos o dia todo atrás dele. Encontraram ele bem machucado. Tinha
brigado com outro pit Bull. Ele se recuperou, mas já não era o mesmo. Queria
fugir de novo, sempre que desse. Quase que um grito de socorro pedindo atenção.
Confesso que por dias já fiquei sem ir ver ele e senti que ele andava triste.
Passei a conversar mais com ele, dar carinho. No final de 2012 vimos que ele
andava quieto, em 3 dias perdeu muitos quilos. Não comia, quase não bebia água
e quando o fazia, vomitava. Levamos ele pro veterinário. Disseram que podia ser
doença de carrapato. Ele ficou um dia internado e estava melhorando. Voltou pra
casa, já comia e estava tomando medicação. Na outra semana abri a porta da
cozinha e vi vários pontos pretos e vermelhos no chão. Sabia que era ele.
Encontramos um machucado no ‘saco’ dele. Sangrava sem parar. Minha mãe passava
pomada, lavava e tentava curar aquele machucado. Era final de ano e nenhum
veterinário estava de plantão. Tentamos enrolar uma faixa nele, mas ele
arrancava sempre. Ele foi ficando cada vez pior. Levamos em outro veterinário e
internaram ele. Duas bolsas de sangue e dois dias internado. Eu estava viajando
e quando cheguei no domingo a noite chorei quando vi o sofrimento dele. Acordei
na segunda com um choro abafado dele. Fiquei lá conversando e chorando e
pedindo para que ele fosse forte e melhorasse logo. Tirei umas fotos com ele,
sabia que ele não tinha muito tempo de vida. Nessas horas eu vejo como somos
egoístas. Preferimos ver um animal sofrer e estar ali com a gente, do que
deixar ele partir e se livrar da dor. Ontem à tarde ele faleceu e ninguém me
contou. Cheguei em casa e encontrei tudo lavado, sem os panos dele. Não tinha
sangue, não tinha vasilha de comida, não tinha Apolo. Ele descansou. Marquinhos
me contou a notícia e eu não reagi, não chorei. Por uns minutos fiquei em transe. Deitei e só
depois chorei, senti a dor aumentar e dormi. Pensei que poderia ser um
pesadelo. Acordei e fui na varanda, não tinha nada. Não vai ter latidos quando
eu chegar em casa, não vai ter choro de ciúmes quando Marquinhos ficar comigo
no portão, não vai ter um cachorro pidão no domingo de manhã pedindo pão na
janela. Ele se foi. Obrigada pelas memórias,
Apolo. Esteja em paz. Amo
você! ♥
Sou estiloso:
- Lola, chega de chorar e chega de fotos! São 6:30 da manhã ¬¬


